
A dor do outro
Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai impunha moral, colocando-o rente ao chão, se preciso fosse, para entender o sentido de ter uma família. Se chegava bêbado, dormia na varanda, enrolado em trapos, para aprender. E não foram poucas as vezes que aconteceu isso. Papai sofria, silencioso, para não demonstrar fraqueza, mas no seu íntimo se doía de tamanha irresponsabilidade do único filho homem. Perguntou a mim, chorando, o que teria feito para Almir desandar na vida; pagara os melhores colégios… – teve, de fato, uma educação exemplar, mas, quando se tornou adolescente, começaram os problemas na escola, inclusive com a vizinhança, que reclamava de pequenos malfeitos. Papai morreu de desgosto, decerto, com o coração dilacerado; sofreu um ataque fulminante, que não houve tempo sequer de tentar uma reanimação. Nessa hora, como em todas as outras problemáticas, Almir não estava presente para ajudar. Tentamos de tudo, para que se livrasse das drogas, mas ele dizia que era algo resistente, entranhado, que nunca conseguiria abandonar o vício. O grande mal é que roubava as coisinhas de mamãe, que juntou com tanto sacrifício, para vender ou trocar por droga. A casa de mamãe estava totalmente desabitada de coisas; era um vão oco e infernal. Eu mesma não me sentia bem em visitá-la; o ambiente era catastrófico, que humano nenhum poderia resistir, exceto mamãe, que não queria sair. Almir, em seus acessos de loucura ou de abstinência, já chegou a agredi-la. Tenho pena de mamãe, que não quis de jeito nenhum largar a casa, alegando que, se saísse, o filho tomaria de conta com os comparsas da vagabundagem. E é verdade, Almir já tentou expulsá-la para ocupar o lugar com seus “amigos”. Como sou cristã, ao mesmo tempo tenho pena do Almir; ele estava endemoniado. Já conversei com ele sobre Jesus e ele me mandou para “aquele lugar”. Tenho a esperança de que alguma palavra tenha semeado o bem em seu coração, e que ele tenha se arrependido dos malfeitos. No final de semana, Almir foi morto da pior forma, encontrado numa viela perto de casa. Corpo estendido no chão. Tinha inúmeras escoriações, resultado de brigas ou coisa do tipo; ou mesmo morto a pauladas. Havia um rombo enorme na cabeça. Poderia estar devendo aos traficantes. Nunca saberemos. Que dó! Nessa hora cheguei a pensar em quantas oportunidades meu irmão teve na vida, mas preferiu recusá-las; ou não foi forte o bastante para recusar. Pelo menos, parou de sofrer e de trazer dor de cabeça à mamãe. Pena, muita pena, do pobre Almir, que viveu para sofrer.













